Post Scriptum

Primeiramente um salve para quem for ler esse post!

Nunca fui de transcrever textos que eu houvesse lido, mas tendo em vista que esse que eu transcreverei hoje foi pouco difundido, me arriscarei ao inédito.

Esse texto faz parte do “La Vie en Rose” de Dominique Glocheux, um jovem executivo que sofreu um grave acidente em 1987 e depois de quatro meses em coma passou a ver o mundo sob uma nova ótica e decidiu escrever esse livro. Em suma o livro se encaixa bem na prateleira “auto-ajuda” da biblioteca não fosse o Post Scriptum, belíssimo texto que apesar de ter sido escrito há 10 anos descreve muito bem os dias atuais.

O texto é longo, mas quem conseguir chegar até o final não sofrerá nenhum arrependimento.

Na Antiguidade, o trabalho era reservado aos escravos. Era degradante, humilhante. Durante séculos, ninguém teria perdido a vida tentando ganhá-la. Santo Thomás de Aquino chegava a reconhecer o ócio. Foi no século XIX que o trabalho se tornou um valor universal: tanto a criança quanto o “velho” de 45 anos trabalhavam 17 horas por dia.

Crise de 1929: é preciso escoar as riquezas, passar à sociedade de consumo. O assalariado redescobre o “tempo livre”. Depois vem a mensagem de maio de 68: o valor “trabalho” é apunhalado nas barricadas. Por razões socioculturais.

O crescimento dos anos 80 vai permitir uma tímida retomada: o desejo era trabalhar o máximo possível, criar empresas, tornar-se um Big Boss: foi a GERAÇÃO DOS PODEROSOS CHEFÕES. No entanto, dez anos depois, em que eles se transformaram? Queriam ter sucesso na vida. Antes de sua vida ser um sucesso. Pronto! Hoje, quase todos fazem parte da GERAÇÃO PROZAC.

A crise econômica não ajudou em nada. Pior ainda – uma avalanche de perigos parece aumentá-la cada vez mais. Fracassos ideológicos, fratura social, desengajamento das elites, deserção cívica, etc. A lista é longa! E a mídia faz seu trabalho a cada dia, como uma formidável caixa de ressonância. Resultado: por toda parte, o que vemos é o sentimento de um povo sitiado. A morosidade é crônica, a desilusão é geral, o desemprego assola todos os espíritos. Nós nos isolamos. Temos medo. Pior ainda: alguns se desesperam. Estaríamos à beira de um abismo?

Tomemos um pouco de distância: o espaço de três, quatro vidas humanas apenas. Era outro dia. Desde 1850, a expectativa de vida passou de 45 para quase 85 anos. O trabalho ocupava 70% de uma vida, hoje ocupa cerca de 12%. Trabalhamos SEIS VEZES MENOS do que nossos bisavós. E ainda não chegamos ao fim: nossa sociedade está discretamente diminuindo o tempo de trabalho. Por motivos econômicos. E, no ritmo em que as coisas andam, corremos o risco de a história se repetir bem rápido, e as gerações futuras talvez fiquem espantadas ao saber um dia que nós também nos rebaixávamos trabalhando.

O trabalho é um valor entre muitos. A maioria está em pleno processo de mutação, talvez de destruição Vivemos uma crise tanto moral quanto econômica. Tudo está se partindo. Nada mais normal na escala da história da humanidade. Mas, na escala de uma vida humana, podemos ter a impressão de estar a bordo do Titanic. Vai naufragar, não vai naufragar?

Até o século XVIII, a moral vinha “do alto”. A sociedade respeitava princípios sagrados e intangíveis, escritos e ditados pela religião. Em suma, os valores e os modelos (os santos) eram impostos ao homem.

Com a progressiva transformação de nossa sociedade, a maioria dessas obrigações austeras foi contestada e, em seguida, desvalorizada. Resultado: o homem encontra-se hoje liberado de uma submissão cega às forças religiosas e intemporais. Pela primeira vez, ele tem a formidável liberdade de escolher sozinho, no seu íntimo, seus valores, sua moral, seu modo de vida. Mas o vazio à sua frente é vertiginoso. Ele é livre como jamais foi em sua história. Mas livre para quê? Ao seu redor, tudo é livre, aberto, mas sem alma. Sem valores?

Aqui e ali já aparecem alguns sinais reconfortantes que traduzem a a provação de valores como a justiça, a honestidade, a generosidade, a lealdade, a honra. Como reflexo da desolação de uma época sem referências, de futuro aleatório, cada um procura hoje em dia apoio e conforto em suas relações com os mais próximos. Procura introduzir respeito e gentileza em suas relações humanas. Procura reatar o nó social, ritualizá-lo graças às boas maneiras, à bondade, à gentileza, à cortesia. Redescobrimos assim que os pequenos balés do “Bom Dia”, “Obrigado”, “Até logo” que executamos para comprar o jornal são pedacinho de felicidade.

Portanto, a moral pública de ontem está dando lugar a uma moral pessoal. Ainda somos todos aleijados morais, mas que progresso! Mesmo que a vitória não esteja garantida. A moral que antigamente vinha “de cima” às vezes fica tentada a voltar por nossas antenas de TV. Nossas personalidades são submetidas a duras provas pela mídia: como decidir por nós mesmo tal balbúrdia? Como fazer silêncio dentro de nós mesmos, redescobrir nossa sabedoria profunda, quando a lógica da mídia consiste em nos fazer aceitar o modelo globalizado que ela alardeia com insistência e poder? Esse modelo valoriza a imagem, o instante e a emoção, em detrimento do sentido, da continuidade e da razão. Seria difícil contribuir mais para fossilizar nossas personalidades e desagregar nossas estruturas de base – crescer, aprender, merecer, integrar-se com a família, com a escola, etc. exigem tempo e esforço. Mas a mídia não tem nem tempo (lei do lucro) nem interesse em valorizar o esforço (lei da oferta). O “formato televisivo” (poucos segundos para um comercial, 25 minutos para um sitcom, 50 minutos para um seriado, 90 minutos para um filme) exige soluções rápidas e, no final, o herói deve ter vencido, o malvado perdido e os problemas todos resolvidos. Se acreditamos na mídia, não temos alternativa. Para continuar vivendo, não se deve pensar muito (ela faz isso por nós), e nossa única salvação está no frenesi, no controle remoto, nos melhores momentos. No movimento e na velocidade: como piões. Mas, enquanto os piões rodopiam em ritmo acelerado, internamente poder estar passando por uma revolução bem suave.

É possível, pois os sinais que anunciam uma valorização da lentidão (e até mesmo da preguiça!) estão se multiplicando. Sinais de uma busca prioritária por sentido, e não mais por desempenho. De uma busca por pontos de apoio, de unidade. Por harmonia. A vida só tem interesse por seu sentido, o sentido que pensamos que ela tem ou que lhe damos – e o sentido só vem com a lentidão. De que importa ter Internet, quantidades sobre-humanas de informação, se tudo se confunde, se mistura em nossa cabeça? Devemos urgentemente aprender a fazer silêncio dentro de nós mesmo, a ficar imóveis, a escutar nosso próprio coração, a reencontrar nossos pontos de referência, nossas raízes. Ir devagar. Levar o tempo que for preciso para compreender, para assimilar. Para dar ao dinheiro (caro demais) seu verdadeiro valor. Para redescobrir o verdadeiro preço da vida. O verdadeiro valor das coisas simples, das pequenas coisas insignificantes que fazem toda a diferença. Redescobrir os pequenos tesouros escondidos que tornam a vida maravilhosa. Que são as únicas coisas capazes de lhe devolver seu encantamento. Levar o tempo que for preciso para deixar nossa própria sensibilidade acordar plenamente. Para passear com calma, seguir as próprias intuições, curtir a preguiça, brincar. Sonhar com uma GERAÇÃO ZEN DA FELICIDADE.

Enquanto essa Idade de Ouro (e a aposentaria aos 21 anos?) não chega, minha proposta é darmos uma sacudida no mundo. Mesmo que só seja possível mover um bilionésimo de milímetro! É tão simples. Conquiste sua felicidade, torne sua vida maravilhosa, cor-de-rosa, mágica: quando reencontrar esse frescor, essa simplicidade, você vai estender um tapete cor-de-rosa à sua frente. E a felicidade é contagiosa. Desde seus primeiros raios, todos à sua volta serão beneficiados. Como uma chuva de pétalas de rosa. (…)

Por enquanto, resta-me desejar-lhe boa viagem. Uma viagem maravilhosa. Isto não é a Disneylândia, menos ainda um supermercado de felicidade a preços de atacado ou o Marx Donald’s de uma filosofia instantânea. Mas pela primeira vez o ser humano talvez esteja encontrando dentro de si mesmo os recursos e as respostas para os problemas com os quais se depara desde que está na Terra: “Quem sou?”, “De onde venho?”, “Para onde vou?”.

“EU TENHO UM SONHO HOJE”: e se, onde muitos veem apenas o risco de uma catástrofe planetária, apostássemos no começo de um renascimento? Se tivéssemos a nobreza de favorecer essa metamorfose?

Isto é apenas uma visão. Talvez um caminho a ser seguido. O filósofos demonstraram-no muito bem: “Quem faz o anjo faz a besta.” Mas, em todo o caso, é preciso compreender que Paris está agora mais perto de Nova York do que de um vilarejo no interior da França e que, graças à Internet, é possível telefonar para o outro lado do mundo pelo preço de uma conversa ao interfone com seu porteiro. Estamos provavelmente no alvorecer da mais formidável transcendência do homem: a fusão-reconciliação universal de todas as religiões, de todas as filosofias. Um programa maravilhoso, não?

Por que não ajudamos o mundo a progredir um pouco? Mesmo um bilionésimo de milímetro?

Por que não decidimos transformar o mundo suavemente? E com ele, a vida. Inaugurar uma nova maneira de viver, novos valores, relações mais humanas. Maiores, mais fortes, mais bonitas. Rosas como a felicidade, leves como as borboletas.

E se decidíssemos ter a mente cheia de borboletas cor-de-rosa?

E se decidíssemos ser a primeira GERAÇÃO BORBOLETA?

Vocês talvez conheçam a teoria determinista do caos do climatólogo Edward Lorenz, difundida pela mídia com o nome de Efeito Borboleta: uma borboleta que bate as asas no Brasil pode desencadear um ciclone do outro lado do mundo. Então imagine o efeito de uma infinidade de borboletas. De dez, cem, mil, milhões de borboletas! Cor-de-rosa. Todas cor-de-rosa…

Desejo-lhe bom vento, borboleta. E, principalmente, uma vida boa, uma vida bela…

Dominique Glocheux

Paris, França, 2002

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