O Aborto dos Outros

Por ano, 70 mil mulheres morrem no Brasil vítimas de abortos mal feitos. SIM, vítimas. Mulheres pobres, com baixo grau de escolaridade, sozinhas e sem nenhuma possibilidade de criarem seus filhos. Muitas dessas 70 mil mulheres têm suas mortes justificadas pelo “crime” cometido por elas ao realizarem esses abortos, assim, mortas e condenadas, deixam de ser exemplo de uma necessidade imediata de mudança nas leis relacionadas ao aborto, e tornam-se apenas números.

O título deste post faz referência ao documentário de mesmo nome da Carla Gallo, o qual assisti outro dia e me levou a FINALMENTE escrever aqui no blog sobre este assunto. O documentário é um tapa na cara, e me fez pensar muito a respeito do “aborto dos outros”, porque no fim é bem isso mesmo, você não está interessado em pensar a respeito da legalização do aborto, já que não é a sua vida que está em jogo. Mas, vejam bem, eu sei que algumas pessoas tem “ÊNE” motivos para ser contra a legalização e não sou eu quem vai apontar o dedo para alguém, mais do que julgar opiniões, o que me fez vir aqui publicar esse post e “levantar essa bola”, foi ver neste documentário a representação tão clara de como esse problema está diretamente ligado as nossas diferenças sociais.

Eu não saberia dizer para vocês quantas das mulheres que morrem por complicações relacionadas ao aborto são pobres e quantas são ricas, mas eu, você e todo mundo sabe que as ricas aqui são minoria. Afinal de contas, para aquelas que possuem dinheiro a ilegalidade do aborto não é um problema, já que existem muitas clínicas clandestinas, especializadas e CARAS, que podem realizar abortos de forma segura e precisa. Então, não sendo a ilegalidade do aborto um problema para a classe dominante no Brasil, mas sim para a maioria pobre e oprimida por essa lei que não evita mortes e sim mata, por que mudar?

Outro exemplo de como o aborto está diretamente ligado aos problemas de discriminação do nosso país, é o fato de apenas a mulher ser considerada culpada em caso de aborto. Mas, vem cá, mulher faz filho sozinha? A gente sabe que a maior parte das vezes em que a mulher decide realizar o aborto, foi por não ter tido o apoio do parceiro para seguir com a gravidez ou, em alguns outros casos, ambos decidirem que o momento não é oportuno para trazer um filho ao mundo. Mas se é assim, por que nos casos em que o aborto é denunciado apenas a mulher vai presa? Injusto, não?

Para mim a realidade do aborto se desenha assim: mulheres ricas abortam com dignidade e não morrem; mulheres pobres abortam clandestinamente e morrem; as mulheres pobres que praticam o aborto clandestinamente e, devido a complicações precisam ser encaminhadas aos hospitais, são presas; homens hipócritas julgam as mulheres e assistem tudo de fora, como se esse problema não estivesse diretamente relacionado a eles.

SIM, sou a favor da legalização do aborto e da educação sexual atrelada a essa lei. Não quero que as mulheres saiam abortando um vez por mês, mas também não quero saber que as mulheres pobres estão morrendo por isso. Temos um problema sério de saúde pública aqui, sendo tratado com preconceito, discriminação e, ainda pior, como um problema religioso. O caminho definitivamente não é esse, pensem nisso.

Para encerrar o post, eu gostaria de deixar aqui o link do site de uma ONG Holandesa, a Women on Waves (http://www.womenonwaves.org/), essa ONG auxilia mulheres no mundo todo, fornecendo contraceptivos, informação, formação, workshops e abortos seguros e legais fora do território de países onde o aborto é ilegal. Ela foi fundada em 1999 pela médica Rebecca Gomperts. Então, se você chegou aqui neste post por estar com problemas relacionados a uma gravidez não desejada, não se desespere, procure ajuda, você não precisa fazer isso sozinha. 😉

Quer conversar mais sobre isso? Meu e-mail é: danielecharao@gmail.com

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