Para Nina

Ontem estive em um lançamento de um livro de contos, intitulado Metamorfoses. Fui para prestigiar um amigo, mas eram muitos os autores. Me deparei com a história de Nina Gozzoli, com o seu retrato em cima da mesa, com as emoções de quem a conheceu. 

Já em casa li seu conto, a princípio pela curiosidade de ler o que alguém que já partiu queria dizer, mas depois percebi que o que ela escreveu estava presente, na minha vida, nas nossas histórias.

Transcrevo aqui suas palavras. Uma homenagem a Nina e a todas as pessoas que desejam “ser o amanhecer”.

À Beira

Nina Gozzoli

Quando certa manhã Clarisse Cristina acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada numa ninfa. Quase sem fôlego, levantou-se bruscamente da cama, derrubando o celular que gritava para o novo dia, e com um pouco de dificuldade em se equilibrar, percebeu que tinha asas. Duas longas asas saíam de suas costas e pendiam até metade da sua coxa. Girando o pescoço para todos os lados, alcançou o espelho de corpo inteiro e constatou como as asas eram longas. As penas brancas, com pequenas mesclas de prata, azul e vermelho, eram sutis e delicadas. Acariciou a asa esquerda. De textura macia, mas firme. E a quantidade? Ahhh, eram muitas penas. O volume impressionava e Clarisse enfiava com vontade seus dedos por entre elas, sentindo uma coceguinha gostosa.

– Clarisse Cristina! Desligue a porra desse celular!

–  Tá, pai.

Abstraiu o resto da conversa sobre o celular e desligou aquela coisa o mais rápido possível. Voltou pra frente do espelho. Era ela mesma? Aproximou-se. Seus olhos eram os mesmos, muito redondos e castanhos. Os cabelos desgrenhados na altura do ombro, também. Arrancou a camisola se enroscando toda em suas asas. Toda presa, alcançou uma tesoura na escrivaninha e retalhou a roupa. Pedacinhos ao chão, olhos no espelho. Era toda ela, Clarisse Cristina, em toda sua normalidade de uma pessoa comum, sem nenhuma beleza particular, sem nenhum atributo físico que causasse furor entre os jovens de sua idade. Virou de costas e novamente, observou suas longas asas. Com delicadeza, movimentou-as devagarinho. Será que teria controle sobre elas? Decidida, abriu-as num átimo. Certo foi que ambas esbarraram nas paredes e derrubaram alguns livros, causando um ruído abafado que, ao menos não reverberou reclamações do lado de fora de seu quarto. Para ter ideia da sua envergadura, se esticou na lateral e as esticou o máximo que pôde. Eram magníficas e assim, abertas, refletiam o brilho da luz uniformemente. Um espetáculo!

“E agora, hein, Clarisse? Como esconder isso dos outros?”, pensou.

Fez uma cordinha estendida com seus cordões de tênis e tentou amarrá-las. Ficou parecendo uma galinha de feira, era muito difícil fazer isso sozinha. Vestiu o sobretudo de lã por cima, mas ficou ridículo. Veja bem, seria apropriado pra uma balada de fantasia, chegar com o sobretudo e, voilá, num strip tease fantástico, tchã tchã tchãn, abrir suas asas repentinamente. Isso iria ser Diva! Mas não era a alternativa para o momento. Além do mais, era verão. Ninguém usa sobretudo na rua nessa época do ano.

Recolheu-se aos pés da porta. Suspirou. Era momento de pensar. Não que não estivesse fascinada; todavia, pessoas não têm asas. Pessoas são feita de ossos, pele, sangue. Recheadas de escuros e labirintos. Penas sentimos, não possuímos. Penas são para os pintinhos, corujas, corvos, águias. Para majestosos condores que planam despreocupadamente no profundo céu da América do Sul. A regra é clara, aves têm penas, humanos não.

Levantando devagar o olhar, Clarisse avistou entre os retalhos da camisola espalhados, a tesoura de aço inoxidável. Agarrou-se a ela, observou sua lâmina. Utilizara muito essa tesoura quando adolescente. Foi uma época em que gostava muito de construir milhares de objetos diferentes, reaproveitando materiais. Seu quarto vivia entulhado de caixas, papéis, folhas, madeiras, tudo que era lixo para os outros para ela tinha utilidade. Mas e agora? Consegue, Clarice? Consegue cortar suas asas? Conseguiria se transformar?

Com as mãos trêmulas, cortou umas penas. Sangrava, doía. Desistiu. Essa não seria a única alternativa. Observou a janela, o parapeito. O skyline da metrópole. Não sentia frio, não sentia medo.

Voe, voe, Clarice! Seja o amanhecer.

NINA GOZZOLI nasceu em 1977 na cidade de Santos, SP. Em família de músicos, apaixonou-se pelas palavras. Ensinou-as para pequenos amantes da leitura e da escrita em Santos e em Cubatão. Nina faleceu em Porto Alegre em 2016.

Conto fielmente transcrito do livro Metamorfoses, 2016. Organizado por Marcelo Spalding e William Moreno Boenavides. Editora wwlivros.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s