Jantar

Senta aqui e escuta. É que de repente parecia tão mais fácil quebrar os pratos, jogar pela janela os copos, os talheres, os pedaços do peru defumado que já vinha desde o almoço me fazendo engolir a seco o gosto de toda a sua prepotência, desse seu orgulho que nunca se fere. A princípio não pude ver nada de absurdamente imoral na atitude de respingar um pouco de vinho em quem estivesse por perto, sujar o vestido branco daquela sua prima interiorana que insiste em falar de amor toda vez que a gente senta ao lado dela na mesa, e chocar alguns dos convidados com aquela belíssima cena da comida alçando voo em direção ao quintal. Não era pra ferir, era vingança mesmo. Era a minha revanche contra você. Porque depois de anos cozinhando, inovando nos temperos e desvendando sabores; uma mesa bem posta, meia dúzia de luzinhas natalinas e a porra de um peru defumado são o suficiente pra você me rebaixar a auxiliar? Eu precisava te mostrar que a sua altivez podia ser sufocada pela minha modéstia. E foi assim que estraguei seu jantar.

Não levanta, fica e escuta. Eu confesso que quando vi todos os cacos, o vinho entornado pelo piso laminado da sala de jantar, a cara de lorpa daquela sua prima que diante das circunstâncias, do vestido manchado, dos pratos virados, ainda tentava achar uma frase feita do Cury pra remediar o estrago; eu senti remorso. Aquele medo de não ser mais uma pessoa legal, capaz de resignar-se aos seus caprichos mais infames, suportar suas degradações, atender aos seus chamados. De repente eu era alguém e tinha voz. E gritei. E joguei toda a merda na mesa de centro do apartamento cheio dessas “luzinhas de natal” que essa sua prima insiste em achar que são pra ser usadas o ano inteiro. Caralho! Alguém aqui precisava dizer a verdade.

Espera, eu ainda não acabei. Você pode ter saído pela tangente daquela sala, pode ter dito pra prima, pra tia, pra avó, pro vizinho e pro porteiro, que todo o inconveniente da noite foi causado pela atitude desmedida da mentecapta aqui, mas eu e você sabemos a verdade dessa novela que já dura séculos. E amparada na máxima nietzschiana de que aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal é que eu te digo: Sou eu a inocente.

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