Cigarettes

É só um dia como outro qualquer. Carros, buzinas, luzes, pessoas, janelas, Luz Maria e seu cigarro mentolado. Mais uma noite cabalística na vida dessa criaturinha estranha, ritualizadora de tudo: dos seus passos nos lances da escada imunda, seu molho de chaves atirado no móvel antigo da sala, o casaco lançado sobre a cama e seu minuto fumegando o horizonte que ela insiste em chamar de vista, quando não passa de um amontoado de janelas sujas e vazias.

Fogo, dedos, tragada e de repente a vida inteira sai de órbita. Que gosto foi esse? Que cheiro foi esse? Que fumaça foi essa? Luz Maria cospe seu objeto cabalístico como quem joga para fora de si um demônio. Céus, sua boca já não é mais sua! Sua língua, seu paladar, seus desejos, todos os seus sentidos acabam de entrar em colapso, em uma catastrófica espécie de “revolução dos porcos”. E agora?

Luz Maria atira-se na cama e chora. Seus soluços desconsolados podem ser ouvidos no mínimo pelo vizinho que passa pelo corredor do segundo andar, e são lamentos de pavor. Porque agora, diante da revolta dos seus sentidos, ela já não sabe mais o que fazer com o minuto do dia em que ritualisticamente ficava parada diante da cidade defumando o vento. E quem vai levar a sério uma poetisa que não é capaz de tragar um mentolado no final de um dia qualquer?

Insólito, eu sei, mas Luz Maria precisa aceitar, a partir desse instante perdeu sua capacidade de tabaquear.

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