Corsaletti, o não poeta

Não era mesmo um curso livre de poesia, de repente nem um curso era, até aí tudo bem. Corsaletti despeja um apanhado histórico sobre a crônica, “não, ele não é um poeta” é o que meu pensamento propaga em ondas invisíveis caixa craniana a fora. Às vezes ele parece uma criança falando dos cronistas, outras um velho ranzinza reclamando do que se tornaram as crônicas. Quando lê Rubem Braga seus olhos brilham, o ritmo da sua leitura é tão intenso que fere, e sua paixão apaixona até os desavisados como eu. No entanto não penso em seu nome, porque estou embriaga pelas sílabas sonoras presentes em José Nunes.

A poesia havia sido entregue bem antes da expectativa no poeta, nos corredores do Santander enquanto eu perambulava fingindo interesse em uma exposição esquisita e sem nenhum acordo sentimental, o lirismo dessa noite de sexta-feira me foi entregue por um cumprimento despretensioso do “seu” Zé Nunes, aquela pergunta “aproveitando o tempo livre pra nos prestigiar?” foi sem dúvida o que me fez entender o motivo de eu estar naquele lugar, naquele momento (mesmo que eu só tenha me dado conta disso horas depois). Os olhos jacosos de “seu” ora Zé, ora Nunes, me permitem uma imersão no surrealismo; é graças a esse homem, 70 anos, viúvo, ex-árbitro de futebol, que fala de si mesmo em terceira pessoa do singular e em trinta minutos é capaz de se fazer conhecer, que agora entendo completamente a falta que faz quem se vai por morte prematura, também não tenho dúvidas de que o amor transcende a presença, que sempre existe um “jeitinho” para manter o casamento, além de claro, ter a certeza de que Rodrigo Santoro gosta mesmo é de maçã e barrinha de cereal. Seu Zé Nunes confessou que me achava bonita, mas “é que ali no museu de vez em quando ocorrem gravações de comerciais pra TV, daí sim, daí é o momento de ver mulher bonita”. Na despedida apertei firme sua mão pra confessar que foi bom ter o conhecido, ele não só me agradeceu como me deixou solta no corredor com essas joias filosóficas: “mulher precisa usar batom, eu sempre presenteava minha esposa com batom” e “a mulher tem seus dias de ficar quieta, de não ser contrariada, o homem precisa aprender e respeitar até que ela fique em paz de novo; foi desse jeito que evitei brigas no meu casamento”. Depois me deu um sorriso, partindo em seguida para ajudar um visitante perdido a encontrar o elevador. E agora me pergunto: quem se importa com um poeta cronista? A verdade é que expectativas nunca nos entregam um “seu” Zé.

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