Bloco de Notas

A vida é a arte de fingir que se é artista. Fingimos, como se o palco engolisse quem éramos antes de viver, de nascer. Corações presos em cortinas que abrem, e fecham, e esperam aplausos, “corações” para os que choram melhor, riem melhor, falam mais alto. A vida é esse contar moedas na bilheteria. Sorrimos,…

Cárcere privado

Em minha cela nenhum feixe de luz. Estou enterrada, Presa em minha própria armadilha controladora que há tempos construí. Prisioneira de mim me faço exigências de libertação, São tantas e tontas; Desejos inalcançáveis, inexplicáveis e inúteis. Sou eu a pior carcereira desse xadrez de damas Me fazendo de vítima social e emocional, rainha de um…

Um não-soneto para uma não-escoteira

A chuva cai fraca, e tudo está alagado, estou ilhada meu coração é um barco sem rumo, minha mente o bote salva-vidas ou isso, ou me atiro em um rio turvo.   Engoli fumaças pela metade esvaziei xícaras de café pra um tentei ligar as luzes tentei desesperadamente desligar depois.   “A culpa não é…

Débitos sentimentais

_ E eu que sei de ti? Se mal o faço de mim! Deveria? Mas e dever combina com amar? Achava que amor era uma espécie de brincar com o coração na boca. Honestamente? Não queria te ter em dívida.

Se chover me junta

O mar cinzento flutuando sobre nossas cabeças, em uma dança densa, sinistra e pérfida. Esse som me faz trêmula, débil e errada. Esse céu me ocupa, me alaga, me transborda. Vivo em tempestades, entre barcos à deriva, reprodutores de um balé desconforme, desorientados. Desorientada vivo temendo os relâmpagos, as faíscas de alucinação, as convulsões desse…

1854

Diante do calor dessa presença que hora é passado, agora é presente; Facejando o futuro desejado ardentemente em outros tempos, uma paz fervilhante transforma esse momento em água doce. Podem vozes dizer menos do que olhos brilhantes? pergunto. . Falas e escutas devotadas, entregues. Minutos que somam horas, consagradas a ti, aos gestos, ao chocolate…

Ato 1

Fim do primeiro ato, Os gritos de liberdade vivos, Toda a força das vozes doces Toda a insegurança de se interessar Ou fingir interesse. . Encontro palavras, Poucas e hostis E dedos Apontados, afiados, molestadores. Os doces dedos domadores Os que hora me tocam Hora me julgam. Já não sou a mesma. . Não choro,…

Marília, eu já sabia!

Tenho sentido em quase todas as horas de quase todos os dias essa saudade de ninguém. Disfarço contando piadas, rindo de mim, dos meus infortúnios e da minha falta de nada. Adquiri habilidade em passar minutos a fio sentada nessa estrada larga. A escuridão já não me cega mais, os gaviões não me atropelam, e…

Verses

Fluxo. Vai e vem contínuo E lógico. O brilho dourado no espaço cinza. Passos largos e olhares alertas. Aperto. O vento da pressa. O frio da vida. Na esquina mora um prédio incontrolavelmente lindo, Frustrado por ser invisível. Dá para sentir seus olhos tristes, Sua transparência suja, A solidão dos seus reflexos. Na esquina jaz um…

Cegueira

Parece que o corpo ficou vazio. Preciso sentir, Despir a alma da pele. Nunca mais enxergar. Nenhuma imagem contemplará os sentidos. O toque suave em uma epiderme pura Que cheira a som, E vibra em tons graves. O frescor insípido que invade os lábios. Doçura. O escuro perfume da madrugada. E nunca mais enxergar. Parece…